INFORMAÇÃO GENÉTICA
GENOMA DO HOMEM DE NEANDERTAL
VAI SER SEQUENCIADO


 

Cientistas alemães e norte-americanos lançam-se em projecto inédito


A equipa de Svante Paabo, do Instituto Max Planck, na Alemanha, foi a primeira a obter amostras de ADN de ossos fossilizados de homens de Neandertal. Agora, juntou-se a uma empresa norte-americana, chamada 454 Life Sciences, para tentar sequenciar o genoma completo do homem de Neandertal, uma espécie de humano extinta há 28 mil anos e sobre a qual persistem ainda muitas incógnitas.
 


Reconstituição da fisionomia de um Neandertal
 
Em 1997, Paabo colheu ADN mitocondrial de um osso da perna de um Neandertal. Este tipo de ADN é mais resistente, mas encontra-se fora do núcleo da célula e não diz grande coisa sobre as características de um indivíduo ou espécie. Para isso, é preciso conseguir ADN nuclear, dos cromossomas, onde estão as instruções para produzir um ser humano - e a equipa de Paabo anunciou em Maio tê-lo conseguido. Depois de treinarem com fósseis de urso das cavernas e de mamutes, os cientistas conseguiram cerca de um milhão de pares de bases (as contas da fiada enrolada da molécula de ADN) retiradas de fósseis de Neandertal. Esse feito permitiu aos cientistas começar a sonhar com uma possibilidade incrível: conhecer todo o património genético dos Neandertais e compará-lo, tintim por tintim, com o da nossa própria espécie (Homo sapiens) e até com o dos chimpanzés (Pan troglodytes).

Os primeiros ossos analisados em busca de ADN serão alguns dos encontrados em Vindija, na Croácia, com cerca de 45 mil anos. Mas os cientistas estão a procurar com renovado vigor novos fósseis, para diminuir os riscos de contaminação dos fósseis com ADN moderno, que pode ser o dos próprios investigadores que os manusearam. Mas, para contornar o problema da contaminação do ADN, o esforço de sequenciação será enorme. De todo o ADN sequenciado, os cientistas terão de destrinçar e separar o de bactérias, outros animais e também o ADN moderno. Assim, para chegar aos três mil milhões de pares de bases do genoma dos humanos modernos, será preciso sequenciar 20 vezes mais material genético, para depois deitar fora o que não interessa, noticiou o jornal The New York Times.

Para se ter uma ideia do que a tecnologia avançou nos últimos anos, basta recordar que o genoma humano levou dez anos a sequenciar, e agora o projecto do genoma do Neandertal tem uma duração prevista de dois anos. O projecto foi anunciado durante um congresso que está a decorrer em Bona, na Alemanha, para assinalar os 150 anos da descoberta do primeiro fóssil de um Neandertal. E pode dizer-se que as perspectivas de vir a compreender esta espécie extinta de humano e de que forma os Neandertais e a nossa espécie se relacionaram nunca foram tão boas como agora.

Os Neandertais viveram na Europa e no Próximo Oriente desde há cerca meio milhão anos e até há 28 mil anos, quando foram substituídos pelos homens de Cro-Magnon - a nossa própria espécie, a única de humanos que sobrevive na Terra. Persistem, no entanto, muitas dúvidas e mistérios sobre os Neandertais. Sobre a sua cultura, se tinham uma linguagem como a nossa, se eles e os humanos modernos se cruzaram e os seus genes persistem no nosso património genético, por exemplo.
 
adaptado de Público, 23 de Julho de 2006
 

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